Dendezeiro fecha trilogia com desfile marcante no SPFW


Modelos da Dendezeiro. Fotos: Luanna Jambo

A 60ª edição do São Paulo Fashion Week, maior evento de moda da América Latina, chegou ao fim no dia 20 de outubro, reunindo nomes consagrados, como Alexandre Herchcovitch, e novas vozes, como Hisan Silva e Pedro Batalha, que têm redefinido o cenário da moda nacional.

Um dos destaques da edição foi o desfile da Dendezeiro, que finalizou sua trilogia “Brasiliano”, iniciada em 2024, e concentrou os holofotes como um dos melhores da temporada. Realizado no Parque Ibirapuera, o desfile reafirmou a força da marca baiana dentro do SPFW e consolidou seu lugar como uma das vozes mais relevantes da moda brasileira atual.

Fundada em 2018, em Salvador, a Dendezeiro — dirigida por Hisan Silva e Pedro Batalha — tem como lema o rompimento dos limites da moda brasileira, propondo uma estética baseada em diversidade, inclusão e representatividade. Com modelagens agênero, que se adaptam a diferentes corpos, a marca busca acolher a pluralidade e representar a cultura baiana e nordestina globalmente.

Nesta última edição, o tema da terceira coleção foi inspirado na Lei da Vadiagem, instaurada por Getúlio Vargas durante o Estado Novo, que enquadrava indivíduos sem trabalho formal. A escolha da lei como tema reflete como, apesar de já revogada, seus princípios ainda são utilizados como justificativa para a perseguição de corpos pretos e manifestações culturais por eles exercidas.

No SPFW N60, a Dendezeiro reafirmou que moda também é política. O desfile, embalado por DJs ao vivo e beats de baile funk, não se limitou à estética e se apresentou como um verdadeiro manifesto cultural. Ao evocar os Bailes Black das décadas de 1970 e 1980, a marca desenvolveu uma narrativa que vai das pistas periféricas ao centro da moda brasileira, fazendo com que o que antes era visto como criminoso hoje ocupe o palco principal de um evento historicamente branco e elitizado.

Desfile da Dendezeiro em 18 de outubro. Foto: Luanna Jambo

A escolha de abrir a passarela com o funk e de incluir nomes como MC Cabelinho e MC Carol em seu casting não foi aleatória, mas sim uma afirmação de pertencimento: a batida que por anos foi marginalizada agora comanda o ritmo da maior passarela do país.

A parceria da marca com o Ateliê Masanga também trouxe um tom de crítica ao próprio sistema da moda. As bolsas de miçangas e os acessórios produzidos em conjunto com o ateliê reafirmam a importância de práticas sustentadas por comunidades locais e ações que resistem à padronização da indústria.

Com a Lei da Vadiagem, a Dendezeiro encerra uma temporada que representa um momento importante para a moda brasileira — e para o próprio SPFW. Ao levar à passarela corpos, sons e referências que antes ficavam à margem, a marca ajuda a ampliar o que se entende por moda no país. A apresentação reforça o papel do evento como espaço onde novas vozes e estéticas ganham visibilidade, mostrando que segue em transformação e aberto ao que reflete o Brasil real.

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