Marina Ribeiro, dona da marca infantil Marré Deci, fala sobre moda sem gênero

Unissex, andrógeno, sem gênero e outras expressões tentam definir as linhas que estão cada vez menos marcadas no mundo da moda entre o gênero feminino e masculino.

Se antes cor de rosa era apenas para meninas e o azul para meninos, hoje grandes marcas como Gucci, Prada e Armani tentam derrubar essa ideia. Proposto por Coco Chanel na década de XX, que lançou sua coleção com blaisers e calças para mulheres, o gosto andrógeno cada vez mais influência mulheres a se apropriarem do guarda roupa masculino e vice e versa, mesmo enfrentando grande tabu.

A busca pela identidade através das roupas é um assunto dos mais atuais e discutidos nos dias de hoje. Tanto no fast fashion como nas grandes marcas a tendência segue em alta, e mesmo que enfrentando críticas do senso comum, está cada vez mais presente em grandes eventos e no dia a dia.

A tendência do gender bender ou gender less, onde todo tipo de roupa é usado por homens e mulheres, voltou para acabar com os paradigmas e com as diferenças culturais, sociais e anatômicas.

Quando o que está em pauta são as crianças o assunto acaba se tornando mais polêmico, envolvendo questões de ser possível ou não decidir a sexualidade de um ser humano sem que ele ainda esteja 100% formado. Muitos tentam achar no mercado algo que fuja da rosa de menina e do azul de menino.  Foi tentando suprir essa carência que a empresaria Marina Ribeiro lançou sua marca.

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Marina Ribeiro e sua assistente, na sede da Marré Deci

A ideia de criar uma marca de roupa infantil que não tivesse gênero foi uma inovação no mercado. “A diferenciação de gênero é infeliz e, em algumas situações, até cruel, como por exemplo nos sapatos. Atualmente está melhor, mas há 10, 15 anos era difícil encontrar sapatos de menina sem salto”, conta Marina, criadora da marca Marré Deci.

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Pesponto em Pauta: Como surgiu a ideia de criar uma marca de roupas infantis sem gênero?

Marina Ribeiro: Dizem que a maior dor é aquela que dói em nós mesmos. A concepção da marca veio através da necessidade que eu senti, e que muitas vezes as minhas filhas me solicitaram, com relação aos produtos que estavam disponíveis no mercado. Roupas, sapatos, brinquedos. Saltos não são para criança e prejudicam a saúde. Perdi a conta das vezes que reclamei nas lojas pela dificuldade que tínhamos.

Buscamos oferecer produtos diferentes daqueles que a indústria têxtil estava disponibilizando no mercado, da dicotomia azul-rosa e dos estereótipos nas estampas.

Ao mesmo tempo temos o propósito de contribuir para o empoderamento da criança, no respeito ao direito de ser criança e usar roupas adequadas à infância. No respeito às escolhas de cor, na valorização do conhecimento, fuga dos estereótipos, fuga dos preconceitos de gênero. Somos uma marca de roupas de gênero não binário, ou sem gênero.

Trabalhamos nesta linha, com esta filosofia, desde 2012 quando iniciamos a loja.

PP: Foi difícil entrar no mercado com uma proposta “tão ousada”?

MR: Foi, sim. E continua sendo. Embora a internet tenha favorecido os mercados de nicho, como este que nós queremos alcançar, ainda existe dificuldade para encontrarmos as pessoas que entendem a nossa proposta. Aquelas que estejam alinhadas com este pensamento. Existe uma grande resistência por parte de pessoas que ainda não conseguem entender a nossa mensagem. Mas como estamos trabalhando nosso propósito de tornar a sociedade mais igualitária, não vemos alternativa para nosso trabalho. Embora encontremos dificuldades, é assim que queremos nos posicionar.

PP: Como você acha que as suas roupas influenciam na sociedade? Ou em como as mães e pais pensam a respeito dos filhos?

MR: Nós fazemos parte de uma onda. Não estamos sozinhas. Esse movimento vem acontecendo impulsionado pela facilidade de comunicação e aglutinação que a internet propiciou. A roupa é uma das formas que a sociedade tem para expressar. As pessoas escolhem seus estilos de acordo com as suas crenças. Nosso papel é possibilitar que elas tenham a opção de vestir seus filhos usando padrões fora do estereótipo. De forma que a menina não precise ser princesa o tempo todo, nem o menino tenha que ser agressivo. Apostamos na cultura popular, na música, nos filmes, jogos como símbolos desta nova geração antenada com propostas feministas, igualitárias. Eventualmente alguém que pensava diferente vai se interessar pela proposta e vai se engajar.

Todo nosso discurso é voltado para esta proposta, nas redes sociais, blogs etc..

PP: Para você, as roupas sem gênero, tanto adultas quanto infantis, serão o futuro da moda?

MR: Não. Acho que podem ser mais uma opção, e talvez venha a existir um meio termo. Vemos aqui em Curitiba muitos rapazes de saia. É um sinal de futuro que gostamos muito de ver. As cores devem ficar mais democratizadas, também!

PP: Atualmente existe muito tabu sobre o impacto das roupas sem gênero; você como empreendedora, mãe e mulher, acha que essas roupas seriam um meio de acabar com o preconceito?

MR: Acho sim. Tudo o que é novo assusta. Com o tempo as pessoas tendem a se acostumar e normalizar. Neste momento a mudança foi feita. É uma questão de tempo. Mas, na verdade, acreditamos que a roupa seja um reflexo da mudança e não o contrário. Se existem algumas pessoas buscando esta alternativa sem diferenciação é porque esta ideia já se instalou em algumas cabeças. Agora é uma questão de ampliar e difundir a ideia. O fato da opção (a roupa sem diferenciação binária de gênero) estar disponível ajuda a agregar pessoas e a difundir a ideia. No caso específico da criança, achamos que elas têm o direito à brincadeira e à experimentação. É saudável permitir que elas ousem e tenham alternativas. Não vemos necessidade de restringir o universo infantil com base em estereótipos de gênero.

PP: O que podemos esperar da marca Marré Déci? Uma próxima coleção, talvez?

MR: Você nem imagina! Temos alguns projetos maravilhosos para tirar da gaveta. Vamos trabalhar com o público adulto, vamos ter um projeto para empoderar mulheres. Com toda a certeza estaremos quebrando barreiras. E nesta proposta de roupa sem diferenciação por gênero ainda temos muito trabalho a fazer.

 

Bruna Ribeiro – 2º semestre

Iris Brito – 1º semestre