Dress code: censura ou necessidade?

Muitas grandes empresas estipulam um código de vestimenta (o dress code), que consiste numa espécie de uniforme para que os colaboradores da corporação transmitam a seriedade e a índole da marca.  E essas regras muitas vezes geram polêmica no cotidiano dos funcionários.

Há muitos casos em que o chefe ou responsável chama a atenção de alguém ao usar roupas desleixadas ou descoladas até demais, além daquelas que possuem decotes avantajados, ou comprimento visto como inadequado. “Teve um evento interno da empresa e eu estava de tênis. As outra mulheres estavam de salto. Homens, de sapato social. Eu fiquei olhando e me sentindo muito mal. Alguns dias depois, minha chefe me chamou na sala dela, e um dos assuntos foi o dress code”, conta Carolina de Barros.

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Carolina de Barros, após um dia de trabalho na Bolsa de Valores. Foto: Íris Brito

A jovem de 24 anos, que trabalha na Bolsa de Valores, já passou por outras situações em que foi julgada pelo que vestia. Em uma delas quem a criticou foi um companheiro de equipe. “Uma vez a gente foi almoçar, eu e o pessoal da minha área, e um dos meus gestores meio que deu uma zuada porque eu tava com um tênis com brilhinhos, só que para mim era uma coisa muito normal, era um tênis da moda, arrumado. E ele falou alguma coisa tipo ‘Meu Deus, que coisa chamativa’”.

Por isso, muitas vezes, quando os códigos de vestimenta entram em discussão, muita gente tende a se irritar e dizer que “vivemos em um país igualitário e democrático”. Só que as empresas que adotam essas regras quase sempre o fazem para tentar zelar por sua própria imagem, justificando que determinadas vestimentas poderiam ser um motivo de distração no ambiente de trabalho.

“O funcionário é um representante da empresa, quando ele participa de uma reunião, não é a pessoa que está ali, e sim a empresa. O dress code está muito mais relacionado ao que essa companhia representa e como ela quer ser percebida do que qualquer outra coisa. Em determinadas empresas isso tem muita importância, especialmente naquelas mais tradicionais”, opina Carolina.

O manual de código de vestimenta não é utilizado em todas as empresas. Em muitas, há ainda o uso de uniformes. Mas em várias companhias a escolha da roupa fica a critério dos próprios funcionários. Entretanto, é válido saber que o dress code não é exatamente um vilão, pois ele também contribui para o aprimoramento da imagem e da postura do profissional.

Como no caso de Nicole Oshma, 20, que quando estava procurando estágio deparou-se com uma situação totalmente diferente do manual de vestimenta. “Eu sempre fui de roupa social em todas as entrevistas de emprego. Mas houve uma vez que eu fui numa dinâmica de emprego da Red Bull e ninguém lá estava com roupa social, só eu. A galera estava de boné, jeans rasgado, ainda por cima. E eu passei uma impressão muito diferente para os gestores”.

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Nicole Oshma em um típico dia de trabalho na FCA. Foto: Íris Brito

Preconceito

Há ainda os comentários sobre aparência que não são muito agradáveis de ouvir, principalmente no caso das mulheres. Lina Moreira, doutoranda da Faculdade Metodista, conta que se sentiu inferiorizada diversas vezes no mercado de trabalho por estar usando um certo tipo de roupa. Ela explica que mesmo na área da comunicação, em que o código não é muito social, nem sempre ela conseguia recursos para acompanhar essas regras, como a maioria, em razão das restrições para o consumo de roupas.

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Lina Moreira em palestra sobre machismo no ambiente empresarial, na faculdade ESPM. Foto: Íris Brito

“Aprendi com o tempo a determinar o meu estilo. A pior situação que vivi foi uma faculdade em que trabalhei, que determinou o uso de uniforme. Como assim um gerente de marketing de um negócio de desenvolvimento humano usa uniforme de funcionário de atendimento de ‘plano de saúde’? Este foi o período mais constrangedor da minha carreira, com relação à vestimenta”, explica.

Os comentários nem sempre implicam diretamente nos desdobramentos previstos em um manual de vestimenta. Muitas vezes refletem a formação da pessoa que fez o comentário ou tomou determinada atitude. Lina, por exemplo, afirma que o simples fato de o tema “sugestões de roupas” ser tratado em palestras como algo comum já expõe essa questão. Michelle Puccini, ex- funcionária da Alcoa, conta que até recebeu um treinamento sobre o que era permitido usar na empresa. “Logo na primeira semana tive um treinamento no qual um dos temas era vestimenta no trabalho. Apesar de eu não trabalhar na linha de produção, tinha que seguir várias restrições da mesma maneira.”

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Michelle Puccini, em palestra usando roupas sociais. Foto: arquivo pessoal

Nicole lembra de quando começou recebeu conselhos sobre o que vestir. “Quando eu comecei no trabalho, todo mundo me falou ‘você vai ter que ir de sapatilha, porque tênis não pode’. Não pode saia muito curta, short muito curto”. Ela conta também que às sextas-feiras, a FCA adota a vestimenta casual, em que não é obrigatório o uso de roupas sociais. “Eu nunca fui mal olhada, porque na sexta tem “casual Friday”, e eu sempre vou de roupa curta, ninguém me falou nada, mas eu tenho aquele receio, especialmente por ser um ambiente com muitos homens.”

É importante saber que existem diferentes profissões, então as recomendações de vestimenta devem caminhar ao lado do tipo de ambiente de trabalho em que se está. Como é o caso da advogada Sarah Lima. “Devido à minha profissão, sempre fui orientada a me vestir com traje social, evitando comprimentos curtos e decotes avantajados”. Além disso, ela afirma que já foi julgada por usar jeans quando estava trabalhando.

Por Íris Brito, Isabella Puccini e Carolina Ozi

Edição: Larissa Kazumi