O padrão de beleza virou uma mercadoria?

O Brasil lidera o ranking de cirurgia plástica entre jovens. De acordo com as estatísticas da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, são feitas 90 mil cirurgias estéticas entre adolescentes por ano no Brasil e o número não para de crescer. Segundo a instituição, os principais motivos para realizar o procedimento são o desejo de ter um corpo mais próximo do padrão ditado pela sociedade e as mudanças passadas pelos jovens nessa fase de transição para a fase adulta. Muitas vezes os adolescentes passam por situações de preconceitos por não estarem dentro desse padrão corporal tão impregnado na sociedade e para evitar passar por situações, se submetem à esses procedimentos.

Dentre todos os motivos que levam adolescentes e adultos a passarem por procedimentos estéticos e não aceitarem o próprio corpo, o padrão de beleza e a grande influência da mídia talvez sejam as principais razões para o impasse da auto aceitação. Renata Tuneli, nutricionista, afirma que os problemas não são apenas físicos, mas  também envolvem outros campos: “Ás vezes, fazer uma dieta e cortar tudo aquilo que ela acha que a esteja engordando não é suficiente para chegar ao peso em que se almeja, podendo desencadear transtornos e doenças psicológicos, como as que eu citei anteriormente”, comenta. Além disso, os impactos são grandes na vida de uma pessoa que já sofreu algum tipo de transtorno, Débora Rodrigues, vítima da gordofobia revelou:  “A sociedade impõe isso, em alguma fase da nossa vida a gente idealizar ter um certo tipo de corpo que é rotulado como perfeito”.

A gordofobia é, especialmente, praticada contra as mulheres. A Universidade Cornell aponta que é a população feminina que mais sofre com as consequências da não aceitação do corpo, no geral 50% das mulheres que estão acima do peso têm menos chances de frequentar o Ensino Superior e sete vezes mais chances de ter depressão ao longo da vida. Rosana fala do porquê tal preconceito afeta as meninas: “Estudos no campo da psicologia comprovam que a vaidade é muito mais aflorada nas mulheres do que nos homens, então estar acima do peso para as meninas é muito mais inaceitável tanto pra ela quanto para as pessoas que estão em sua volta por causa da cobrança de sempre estar de acordo com o esperado e isso cria um pavor nelas de não estar no “peso ideal” e ser julgada”.

Na TV

Recentemente, a série “Insatiable”, produzida pelo Netflix, gerou discussões polêmicas que alegavam que seu conteúdo é gordofóbico. No site Change foi feita uma petição na qual, mais de 235 mil pessoas, pediram o cancelamento do programa. Além disso, a série conta com apenas 11% de aprovação, no Rotten Tomatoes, dados que tornam difícil entender a sua renovação para a segunda temporada. “Além de muitos jovens acreditarem fielmente no que é colocado nas séries, esse programa repercutiu negativamente e foi uma surpresa para todos ela ser renovada”, diz Rosana. A psicóloga também comenta que ela espera que eles pensem na saúde mental de quem vai assistir e não insista no erro de continuar com abordagens gordofóbicas no roteiro.

Ao longo do tempo, o padrão imposto pela sociedade foi mudado, antigamente uma mulher era considerada dentro dos padrões de beleza se possuísse coxas grossas, cintura larga e seios avantajados. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2015, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma em cada cinco meninas brasileiras com idade entre 13 e 15 anos se acha gorda ou muito gorda. A dançarina Gabriela Negrão, do programa da Rede RecordO Melhor Do Brasil”, explica que durante seu período no programa diz que sempre achava que podia ficar mais magra, menos barriga, coxas, embora seu biótipo é de “corpão” e ela era feliz.

Porém, nem todas as mulheres possuem o mesmo pensamento que Gabriela. Academia, dietas e processos estéticos são alguns caminhos delas conseguirem o “corpo perfeito”. As primeiras dietas voltadas a controlar o peso e reduzir medidas datam de mais de 2,4 mil anos atrás, uma das mais famosas foi criada justamente por um dos primeiros médicos de que se tem notícia, Hipócrates. Segundo um levantamento feito pela BBC, 98% das dietas falham, causando frustração às suas seguidoras. A ex-dançarina da Rede Record conta: “Sim, sempre me preocupava com isso, portanto me restringia a consumir algumas coisas como por exemplo doce, frituras, arroz e até azeite e sal”.

Dificuldade no emprego

Entre as dificuldades de se estar acima do peso está a questão do trabalho. Na Universidade George Washington, nos Estados Unidos, uma mulher “pesada” ganha US$ 9 mil a menos por ano que uma mulher no peso “normal”, já uma mulher “muito pesada” ganha US$ 19 mil a menos. A secretária de gabinete do Palácio do Governo de São Paulo, que se considera uma mulher plus size, Maria Augusta Martins disse: “Antes eu não estava muito acima do peso, agora com a idade e estando mais acima do peso. acho que eu não seria convidada a ser secretária”. Quanto ao ambiente do seu trabalho atual, a secretária comentou que existem pessoas que a olham com indiferença, porém, nesse momento, no local em que ela trabalha, observa que a maioria só vê sua idade, fazendo com que o fato de ela estar gordinha passe para segundo plano.

Em 2011, Roberto Justus, ao ser entrevistado por Marília Gabriela, disse que não se deve contratar uma pessoa acima do peso, já que a gordura é prova de falta de autocontrole e inteligência. Porém, ele não é o único empresário que pensa dessa forma,  sete em cada dez empresários brasileiros não querem empregar pessoas consideradas “gordas” para eles, segundo uma pesquisa do Ministério da Saúde, em 2006. Ao retratar as dificuldades no seu emprego na Rede Record, a dançarina Gabriela afirma: “Especificações sobre os corpos das bailarinas não chegavam diretamente nas meninas, mas com certeza existia, principalmente em “não ter barriga” e, assim, algumas eram dispensadas”. Além disso, ela comenta que, ao sofrer essa pressão, algumas bailarinas faziam até cirurgias e procedimentos estéticos, para chegar em um “padrão”.

Uma pesquisa da empresa de recrutamento Catho Online com profissionais de alta gerência apontou que, dos 16 mil entrevistados, 59,1% admitiram ter algum tipo de objeção na hora de contratar funcionários obesos. Reforçando o fato de que pessoas acima do peso possuem maiores dificuldades ao encontrar emprego, pois há uma resistência dos empregadores e por serem uma parte “excluída” da sociedade. Cada ponto a mais no Índice de Massa Corporal (IMC), que determina o equilíbrio entre peso e altura, representa 92 reais a menos no salário em relação aos salários de colegas mais magros, segundo a pesquisa apontada acima.

O real problema

Ao buscar o “corpo perfeito”, algumas mulheres se deparam com problemas na saúde devido a necessidade que elas possuem em emagrecer. Uma pesquisa da UFPE revelou que 90% das meninas entre 10 e 14 anos se acham gordas e fazem regime. Já um estudo da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo com jovens entre 10 e 24 anos apontou que 77% correm risco de desenvolver distúrbios alimentares. A nutricionista Renata, que também foi vítima de anorexia, revelou que na segunda vez em que ela teve esse distúrbio, mesmo com o acompanhamento de uma nutricionista, ela também teve depressão por achar que estava muito acima de seu peso “ideal”.

Segundo pesquisa da Casa do Adolescente, da Secretaria de Estado da Saúde, a cada dois dias, em média,  uma pessoa é internada por anorexia ou bulimia somente nos hospitais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em São Paulo. Ao fazer essa pesquisa foi descoberta que 85% das adolescentes entrevistadas acreditam que existe um padrão de beleza e que ele deve ser seguido. O que não se sabe é que nem sempre uma pessoa acima do peso não é saudável, assim como uma pessoa magra pode sim ter problemas de saúde. Estudo recente encabeçado por psicólogos da Universidade de Los Angeles (Ucla) apontou que usar o IMC para determinar índice de saúde levou à classificação incorreta americanos saudáveis como “doentes”. De acordo com a pesquisa, que cruzou dados de IMC com os de exames laboratoriais, quase metade dos norte-americanos considerados acima do peso conforme seus índices de massa corporal são saudáveis, além disso, 30% dos pacientes com IMC considerado normal não estão saudáveis.

Sobre esses distúrbios, a psicóloga retratou: “A reação no psicológico mais comum de quem se acha gordo é o transtorno alimentar, que engloba a anorexia, a compulsão alimentar e a bulimia. Além disso, pode resultar em a pessoa não ir para festas, não sair com os amigos e não fazer aquilo que elas gostam, podendo desencadear em uma depressão e até em uma tendência ao suicídio”. Com cada vez mais essa fixação por meio que deixem as pessoas mais magras, grupos começaram a se organizar nas redes sociais e foram chamados de “Ana e Mia”, diminutivo de “anorexia e bulimia” e também é uma forma de identificação entre os portadores dos distúrbios, que compartilham “técnicas” sobre como vomitar e como comer e não engordar.

No ramo musical distúrbios e transtornos alimentares, assim como o padrão de beleza imposto pela sociedade são fortemente discutidos. A cantora Beyoncé, na música “Pretty Hurts” fala que a beleza machuca, evidenciando sempre o pior nas mulheres e fazendo com que a perfeição seja a doença da nação. A psicóloga Rosana comenta: “Pode se dizer que o padrão de beleza virou uma mercadoria, onde se vende produtos para as pessoas se tornarem iguais os modelos de campanha. Isso acaba influenciando e afetando o psicológico, pois se eu não sou igual aqueles que são mostrados em propagandas ou em filmes e não sou bonito no ponto de vista da sociedade, eu sou excluído dela”.

Essa busca pela perfeição do corpo imposta pela sociedade, leva tantas mulheres a morte, em 2017 o caso que chamou atenção da população mundial foi o da menina irlandesa Milly Tuomey, de 11 anos, que tirou sua própria vida por questões de beleza, a garota se suicidou após publicar uma mensagem em que dizia não aceitar a própria aparência, segundo os relatos da mãe da jovem  para o jornal The Irish Examiner, Milly já chegou  a se cortar e escrever “garotas bonitas não comem” com seu próprio sangue. Esse caso acabou se tornando mais um entre os milhões casos que existem no mundo.

Segundo uma pesquisa feita pela marca de cosméticos Dove, apenas 4% das 6.400 mulheres entrevistadas se sentem seguras para se definirem como belas. Entre as mulheres brasileiras, a porcentagem é maior, cerca de 14%, mas ainda é baixa. Isso mostra uma situação preocupante, pois o aumento o suicídio por mulheres que se sentem culpadas por não estarem dentro dos padrões de beleza aumentou nos últimos anos. Débora Rodrigues que sofreu na adolescência por estar fora dessas medidas impostas pela sociedade, afirma que já tentou tirar sua própria vida diversas vezes principalmente por sofrer com o bullying no Ensino Médio, ela também conta que depois de um tempo decidiu ir em busca de uma ajuda mais especializada no assunto.

Dados levantados pela University of the West of England (UWE), no Reino Unido, apontam que 16% das mulheres prefeririam perder um ano de vida para se tornar mais magra, 10% daria cinco anos em troca da magreza e 1% dispensaria 20 anos em busca do “corpo ideal”. Em uma sociedade onde ser magra, ou entrar dentro de um padrão de beleza imposto, é mais importante do que ser feliz e, muitas vezes, saudável, é importante abordar: o que fazer para melhorar isso futuramente?

A esteticista Gisela Haddad trabalha no ramo há 25 anos e possui atualmente sua própria clínica. A profissional diz que em seu ambiente de trabalho, nenhuma se  suas esteticistas estão dentro de um suposto padrão de beleza. Fazem parte de sua equipe, mulheres de todos os tipos de corpo, estejam eles acima, ou abaixo do peso “Nós temos profissionais acima e abaixo do peso, e tudo bem!”, diz Gisela. Essa imagem de normalização de todos os tipos de mulheres é uma coisa muito trabalhada na clínica de Gisela, a ideia de que não existe um padrão fixo e único de beleza, a ideia de que todos os tipos de corpo são bonitos.

Além disso, a profissional defende que é sempre muito importante tentar ao máximo fazer com que a paciente se sinta bonita do jeito que é. Para isso, Gisela conta que é essencial sempre destacar coisas lindas e boas em suas clientes, abordando aspectos positivo, pois esses clientes sempre terão esses aspectos positivos. Seja a pele, as curvas, ou até mesmo pernas bonitas, Gisela procura deixar claro para sua paciente que antes mesmo do procedimento, ela já é linda. A profissional ainda afirma que o objetivo é tentar melhorar a partir do próprio perfil da pessoa, não formata-la dentro de um suposto padrão. “É importante ter metas possíveis”, diz a esteticista sobre os procedimentos realizados.

Gisela ainda alega que o padrão de beleza é “uma loucura” e que por nenhum momento o objetivo é colocar alguém dentro de um padrão, mas sim, fazer cada mulher se amar mais e cuidar da saúde aceitando ser ela mesma. A abordagem da clínica de Gisela é muito diferente. Ela tenta resgatar o melhor da pessoa e fazer ela se amar mais antes de qualquer procedimento a que futuramente venha a se submeter. Abordagens como essas são cada vez mais importantes para causar um impacto positivo de aceitação em cada mulher da sociedade. É importante que essa necessidade de se submeter a procedimentos e cirurgias para entrar dentro de um suposto padrão, seja desconstruída, e cada vez mais o corpo natural da mulher seja aceito. Estabelecimentos como esse, impulsionam a ideia de que o padrão é falho, desnecessário e não é real.

Empoderamento

A artista Marcia Carvalho, para empoderar as mulheres que estão acima do peso, resolveu representá-las em suas obras. No seu Instagram possuem diversas imagens em que ela retrata mulheres famosas, como a Frida Kahlo, de forma plus size. Marcia conta sobre o surgimento dessa ideia: “Do meu próprio processo de empoderamento, a questão da arte e da produção manual sempre estiveram presentes em minha vida. Eu tenho um histórico profundo de auto ódio, estimulado pela sociedade desde muito pequena, e já há alguns anos eu estou nesse processo de ruptura com a imagem que tinha de mim mesma. No período em que estava fazendo meu TCC da faculdade estudei muito a relação do corpo, do padrão de beleza e da misoginia em nossa sociedade, então resolvi criar um livro que se chama “A mulher que se viu no Rio”, onde pude unir a escrita, a ilustração e a questão da construção da minha autoestima”.

Outras formas de arte também estão, cada vez mais, representando esse grupo de mulheres. O mundo da moda, que é considerado restrito para específicos padrões de corpos femininos, é uma delas. Janaína Vale Buzeti é dona da loja Chauá Ateliê e tem como filosofia para sua empresa a promoção da beleza, o acolhimento das mulheres e a inspiração para a criação das roupas, valorizando e dando voz a corpos únicos.

A artista Marcia diz que sua inspiração é a resiliência e a beleza em cada mulher, que vivem em uma sociedade altamente opressora, e amar o próprio corpo e a própria existência é um ato político e revolucionário. Ela, sobre a união que as mulheres devem possuir independente das diferenças entre elas, comenta: “Somos todas diferentes e isso é o mais bonito, a desconstrução do que é imposto para nós e o surgimento da mulher que existe dentro de cada uma de nós com suas peculiaridades é o que tem de mais bonito no nosso mundo”.

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Por Anna Karolina Morais, Fernanda Shikay, Giovanna Tuneli e Letícia Vinocur

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